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A neve na calçada e o coletivismo alemão

O coletivismo alemão é invejável. Vimos isso em primeira mão quando nos mudamos para um prédio onde não existem síndico e nem contratados para serviços gerais. Vamos te contar a história e você vai entender como a cooperação funciona na Alemanha. No início, quando alugamos nosso apartamento em Stuttgart, recebemos do proprietário um documento chamado “Hausordnung”, em tradução livre, “Regras da Casa”. Neste papel, estão escritas todas as normas que os moradores devem respeitar, como os horários em que se deve manter silêncio, o uso das áreas comuns e a permissão ou não de animais domésticos. Mais ou menos como um condomínio no Brasil, porém com algumas diferenças. Uma delas, por exemplo, é que não existe síndico. Aliás, acredite se quiser, também não estão expressas multas para quem não cumprir as regras. E o mais importante: você tem que observar a sua “Kehrwoche”, ou “semana de varrer”.1

O que a neve tem a ver com o coletivismo alemão?

Basicamente, funciona assim: ninguém paga taxa de manutenção do condomínio e, portanto, não contratam um serviço terceirizado para manter limpas as áreas comuns da residência. Então, os próprios moradores são responsáveis por varrer as escadas, corredores e calçadas num esquema de rodízio semanal. Esta obrigação é fundamental, principalmente durante o inverno. Nesse caso, o inquilino na vez da Kehrwoche, é encarregado também de abrir caminho para os pedestres em frente à sua casa, em caso de acúmulo excessivo de neve.

E foi assim, num domingo de fevereiro, apenas dois meses após a nossa mudança, que fizemos nosso primeiro exercício de observação da efetividade do Hausordnung. Era nossa vez no rodízio da limpeza e estava nevando muito. Ficamos olhando pela janela, as ruas e os telhados, tudo ficando cada vez mais branco com a neve que se acumulava. Até que, em um certo momento, lá pelo meio da tarde, parou de nevar. Logo em seguida, como num movimento coordenado de um espetáculo, vimos vários vizinhos saindo com suas pás, vassouras e baldes para limpar a neve das calçadas. E lá fomos nós também, nos juntar alegremente à multidão que cumpria tão despretensiosamente a sua obrigação. Resultado: em poucos minutos, todas as calçadas estavam livres e seguras para os pedestres que por ali precisassem passar.

Chão coberto de neve com caminho aberto para passagem de pedestres na calçada.
Quando neva na Alemanha, é responsabilidade dos moradores manter as calçadas livres para a circulação de pedestres.

Por que a neve na calçada é tão importante?

Essa história me impactou. Afinal, sempre acreditei e defendi uma ideia, mas dificilmente consegui presenciar funcionando na prática: “quando cada um faz sua pequena parte, com o mínimo de esforço, juntos atingimos grandes resultados, que beneficiam a todos”. O conceito é maravilhoso no discurso e pode até soar um pouco utópico, dependendo do tipo de comunidade onde é inserido. Mas para mim, a experiência com a Kehrwoche naquele domingo de fevereiro comprova que, quando a maioria das pessoas acredita e está comprometida com este valor, ele é absolutamente realizável.

Isto quer dizer que a sociedade germânica é perfeita e que todos os seus cidadãos trabalham impecavelmente como abelhas numa colmeia? É claro que não. Alemães também são humanos e, como tais, possuem suas falhas, seus conflitos, sua complexidade e sua diversidade. Porém, num contexto social, o fato contado acima reflete algo muito subjetivo e intrínseco desta cultura: o coletivismo alemão.

O que é coletivismo?

Enquanto os dicionários definem coletivismo como um “sistema político que pretende tornar os meios de produção comuns a toda a sociedade”, filosoficamente, o termo é bem mais abrangente. Na Wikipédia, por exemplo, consta que “coletivismo é qualquer perspectiva filosófica, política, religiosa, econômica ou social que enfatiza a interdependência de todos os seres humanos. Coletivismo é um elemento cultural básico da natureza humana que existe como o inverso do individualismo. Coletivistas salientam a importância da coesão no seio dos grupos sociais e, em alguns casos, a prioridade dos objetivos do grupo são mais importantes que objetivos individuais”.

Dentro dos valores da sociedade alemã, isso significa que cada indivíduo se considera corresponsável por ajudar a cuidar e zelar pelo bem-estar de todos. Este princípio se externaliza em diversas práticas e organizações consideradas “tipicamente alemãs”, como as milhares de associações sem fins lucrativos, com os mais diferentes propósitos, espalhadas por todo o país (os famosos “Verein”); ou as cooperativas, uma das mais conhecidas e bem-sucedidas invenções alemãs, que surgiu em meados do século XIX, com o intuito de melhorar as condições de vida da população e superar as dificuldades econômicas que se seguiram após a revolução industrial.

Isso é tão relevante que, em 2016, a “ideia e prática de organizar interesses compartilhados em cooperativas” foi atribuída à Alemanha e incluída na Lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, da UNESCO. A lista é formada por elementos intangíveis que ajudam a demonstrar a diversidade desse patrimônio e a despertar a conscientização sobre a sua importância.2

Como reconhecer o coletivismo alemão na prática?

De fato, o coletivismo não é tangível. E por essa razão, talvez seja um pouco difícil imaginar como ele pode ser atribuído tão seguramente a um determinado povo. Entretanto, com um olhar atento, é possível identificá-lo em diversos aspectos do dia a dia na Alemanha. Afinal, ele se manifesta claramente em questões mais amplas, como as associações, as cooperativas, ou até a satisfação com a qual seus cidadãos pagam as altas taxas de imposto de renda, sabendo que serão retribuídos em forma de segurança, saúde e educação de qualidade. Mas aparece também, e principalmente, nas sutilezas do cotidiano. É lá que o coletivismo encontra sua mais genuína e natural expressão: como nos passageiros que pagam seus bilhetes que pegam trens em estações sem catracas, nos motoristas que param para deixar o pedestre atravessar a rua, no silêncio do bairro ao anoitecer, nas varandas floridas da primavera e nas calçadas livres da neve no inverno, por exemplo.

1. Em uma rápida pesquisa no Google, descobri que esta prática é considerada um costume tipicamente suábio e fortemente associada com a região de Württemberg. Inclusive, existe um debate cultural tão acalorado sobre esta tradição, que vale até um futuro post dedicado exclusivamente a ela. 😉
2. Como curiosidade, o Brasil aparece oito vezes na lista, com manifestações culturais como a capoeira, o frevo e costumes indígenas.

Autor: Gabriele Tschá

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