Quando pensamos em mudar de país, muitos pensamentos vem a cabeça: se aventurar em um novo mundo, apreciar uma  nova cultura, conhecer  um idioma diferente, esquecer erros do passado e recomeçar.

Ao primeiro pensamento, tudo parece mil maravilhas, só grandes e bons resultados. É assim que idealizamos qualquer vida fora do Brasil, aprendemos a apreciar o estrangeiro desde pequenos, aprendemos a ver a vida  lá fora muito melhor que a vida no nosso país.

E aí… a notícia chega. A mudança vai acontecer. E então o coração acelera, surgem mil coisas para fazer, documentação, papelada, burocracia, onde vai morar, como irá se comunicar e questões que antes não existiam passam a ecoar na sua cabeça.

Até que chega o dia da grande partida. Tudo o que você precisava fazer, fez. Tudo o que precisava preparar, foi preparado. Aquele “até mais” que você falava todos os dias para as pessoas, agora se torna um “até daqui uns meses”. E naquelas várias horas no avião um turbilhão de sentimentos e pensamentos passam pela sua cabeça. Ao mesmo tempo que aquela ansiedade para conhecer o local novo divide espaço com aquele frio na barriga de insegurança de ir para um território desconhecido. 

As horas que pareceram durar uma eternidade acabam e de repente: “Bem vindo à nova vida”!

Os primeiros dias são diferentes. Repleto de novidades: os sons, os mercados, as pessoas, as casas e você se vê olhando até o cachorro para ver se é diferente. E com o passar do tempo você vai estabelecendo uma nova rotina. Você passa a se adaptar ao lugar. 

E de repente, você se dá conta de que esqueceu algo muito importante no país que deixou. Algo que você nem imaginou que precisaria, até porque se mudar era mil maravilhas. Preparou toda a parte física da mudança, papéis, documentos e esqueceu da parte mental. Corpo e alma precisam se preparar juntos e faltou preparar a mente.

Este breve relato acima, foi um pouco do que vivi na minha mudança para a Alemanha em 2017. E como eu relatei, tudo parecia lindo, até que comecei a me dar conta de que nem tudo eram flores. Não era uma viagem divertida. Não teria o “retorno para casa” porque eu estava em casa. Esta era a minha vida a partir daquele momento.

Eu pensei que a pessoa que vivia em Campinas, que ia no shopping Iguatemi fazer compras e almoçar em família no fim de semana seria a mesma que viveria na Alemanha, mas não foi bem assim. E em um determinado momento eu me dei conta de que deixei para trás não só a minha casa, mas uma pessoa que tinha um papel dentro da família, no grupo de amigos, no trabalho, e em vários outros lugares. Aqui eu precisei me reencontrar. Me reconectar. Me reconhecer. 

Acredite. Esse não foi um processo fácil. Exigiu paciência, persistência e muito AUTOCONHECIMENTO. Morar no exterior com certeza me tirou da zona de conforto. E eu passei a viver desafios que eu nunca imaginei.

Vou trazer aqui dois lados da moeda…

Primeiro lado da moeda: para a pessoa que vem a trabalho ou a estudo. O contato com as pessoas se torna ligeiramente mais fácil, devido a rotina de contato com os novos colegas. O estabelecimento de rotina também é ditado pelas atividades do projeto que se está vivendo.

Segundo lado da moeda: aqui trago minha própria experiência. Eu vim para acompanhar meu marido e o processo de adaptação não foi fácil, porque não era o meu projeto. Precisei encontrar uma nova rotina, criar novos hábitos e adaptar outros. Eu sempre gostei muito de conversar e aqui tudo era mais difícil por conta do idioma e também por não conhecer as pessoas. Cada dia que passava a saudade começava a apertar. Tinham os dias bons e os dias ruins.

Todo novo dia é uma escolha nova. Todo dia você pode escolher como vai vivê-lo. E eu não tinha essa percepção até que eu me vi tendo a opção de um dia bom ou ruim. E aí chegou o dia em que eu decidi escolher: passar os dias reclamando e sofrendo ou ser agente ativo nesta nova fase? 

A partir do momento em que eu decidi parar de viver uma vida que não era mais minha, para encarar a minha realidade e me reinventar aqui, as coisas começaram a mudar. 

Nesse momento tomei a consciência de que na vida existem muitos pontos de inflexão. Pontos em que, a partir de uma decisão ou escolha, nossa vida muda muito, e o processo de mudança é desconfortável porque nos tira da zona de conforto. Descobri que estava vivendo na pele um ponto de inflexão, ou seja, uma grande decisão que nos levaria para um patamar na vida completamente diferente. E eu tinha o poder em minhas mãos de decidir para que caminho ir.

Eu sou psicóloga e encontrei, por meio desta experiência de adaptação, a oportunidade de ajudar pessoas, que assim como eu, também passaram por esses problemas para se reencontrar em uma nova vida. Então se você mudou ou pretende mudar do Brasil, quero  compartilhar com vocês algumas dicas de como enfrentar essa parte mental da mudança, o preparo psicológico. 

Vou te ajudar a colocar uma boa saúde mental dentro da mala de viagem:

Entenda qual o real motivo desta mudança, e esteja alinhado com seu parceiro e família

Quando decidimos  mudar, precisamos entender o que tem por trás desta mudança. Os ganhos de qualidade de vida, segurança, propósito, dinheiro e carreira. Estar alinhado com a família faz com que todos encarem este processo de adaptação juntos e com suporte.

Saiba que nem tudo serão flores

Não é porque você está indo morar fora do Brasil que tudo será maravilhoso como é plantado pela mídia ou pelo senso comum. 

Quando mudamos de país temos muitas vantagens como a qualidade de vida, segurança e acesso a produtos de muita qualidade com um preço mais acessível. Porém a rotina não deixa de existir. Então temos responsabilidades e deveres. É muito importante termos em mente que essa não é uma viagem de férias e que uma hora você “voltará” para casa. É preciso entender que essa é a sua casa, sua nova vida, então você deve vivê-la. 

É até curioso como as pessoas de fora nos olham: às vezes dizem que temos uma vida muito tranquila e boa, mas quando damos um zoom, notamos que nem tudo é tão bonito quanto parece. 

E tá tudo bem se você não estiver bem para começar a sua vida logo nos primeiros momentos. É preciso sentir essa mudança e há um tempo para isso também, porque não é fácil. Então, se reserve um tempo para sentir saudade, para sentir tudo de diferente que está acontecendo. E quando você estiver pronta, assim como um lagarto, você também se tornará uma borboleta nesse novo lugar.

Busque informações sobre o lugar que você vai

Pesquisar o lugar que você vai. Leia sobre a cultura do país. Procure blogs ou grupos de brasileiros que moram naquele lugar para que você possa pegar dicas e estar preparada para as mudanças.

Saiba que o que você  está passando, provavelmente alguém já passou, e isso pode fazer você pegar um atalho e encurtar caminho. Além de que vai te ajudar a não se sentir sozinha, porque outras pessoas vão entender o que você está passando, vão poder te guiar e te ajudar.

Respeite a cultura

Entenda que você está vindo de fora, e que você precisa se adequar à cultura e costumes daquele país. Por isso o item anterior é tão importante. Você precisará se adaptar a novos hábitos e características culturais do lugar. Tenha em mente que se abrir para um nova cultura não vai fazer a sua antiga sumir, você pode até gostar desses novos hábitos e cultivar ambas as culturas.

Autoconhecimento

É preciso entender que você não terá as mesmas coisas de antes. Que você não terá acesso às pessoas como antes. Você precisará aprender a conviver com você mesma e se reencontrar e redescobrir. Redescobrir o que você gosta de fazer, como você lida com os “estar sozinha”. É um ótimo momento para adquirir novos hábitos, descobrir coisas diferentes, começar um projeto que nunca teve tempo.

O autoconhecimento é fundamental neste momento para você também entender o seu tempo.

Se você sentir que não está bem, não hesite em procurar ajuda!

Saiba que esses problemas de adaptação podem existir e isso não te torna alguém inferior. Pelo contrário, só mostra o quão humano você é. E está tudo bem.

Admitir que você pode estar sofrendo e buscar ajuda de um profissional pode te ajudar muito a enfrentar esta fase que para alguns pode ser fácil e para outros muito difícil.

Mudar de país, seja permanente ou temporário, é uma experiência que pode revelar muito sobre você. As situações que você será posto a prova irão te impulsionar para uma transformação grandiosa e a maior delas será aprender a se amar, a gostar da sua própria companhia antes de depender de outras pessoas, porque em um lugar totalmente novo e sem amigos, você só terá a si mesmo para contar. Entretanto, chegar a esse nível de autoconhecimento demanda muita luta e o acompanhamento psicológico, mesmo online, pode te ajudar a conviver com tamanha mudança durante esse processo de adaptação e recomeço.

Gostou do tema? Confira o podcast

Se quiser saber mais sobre o tema, escute o episódio #36 do Alemanha Cast


Autora: Juliana Neves

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